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" O Capricórnio é um animal solitário. Lento, estável, perseverante. Vive em diversos níveis ao mesmo tempo. Pensa em círculos. Sente o fascínio da morte. E prossegue numa escalada constante. Provavelmente à procura do edelweiss. Ou será da immortelle? Não reconhece a sua origem; apenas as suas ascendências. Ri pouco e quase sempre inoportunamente. Colecciona amigos com a mesma facilidade com que outros juntam selos, mas é um ser insociável. Em vez de ser delicado, fala com toda a franqueza. Metafísica, abstracções, manifestações electromagnéticas. Perde-se nos abismos. Vê estrelas, cometas, asteróides, onde apenas os outros enxergam mancha, verrugas e erupções. Quando se cansa de fingir que é o homem que come tubarões, alimenta-se de si próprio. Um paranóico. Um paranóico ambulatório. Mas de afeições e ódios constantes. Ouai!"
Henry Miller - A Devil in Paradise (1956)
Este é o doce Dezembro do Capricórnio que vai ser publicado na primeira edição do "Lodaçal Comix"
O corvo do museu de zoologia que estou a desenhar para uma suposta "ilustração cientifica", ele parece que está a sorrir para mim e parece ter a vontade de piscar-me o olho à medida que os esquissos iniciais se vão desenvolvendo. Insisto em vincar-lhe aquele sorriso que, segundo o meu professor de desenho, diz ser uma tendência que todos nós temos para personificar o real e o que nos rodeia. Se existe fuga mais apetecível é à representação congelada de um mundo na sua desordem. Mas se aquele corvo não estivesse mórbido e fixo naquele pedestal, acho que teria toda a vontade de sorrir perante mim e o meu diário gráfico Porque afinal de contas, somos muito parecidos!
"Ivy kissed the shadows,
As mo(u)rning lusts for dew,
She with lips of sweetest pain,
Lies in wait for you.
With the dawn she went away,
Before mist veiled the earth,
Nothing remained - except for the wounds -
The only gift of her"
Sopor Aeternus

Um dos grandes vilões da saga de Mind, o meu alter-ego.
Iscariote foi o Deus idealizado e desenhado pelo ditador Phillix e os seus sacerdotes auxiliares, que foi transportado para a realidade e selado num cofre sagrado. O seu corpo assumiu a forma de grandes sementes de sésamo que, ao serem consumidas com dever sagrado, transformam os seus consumidores em máquinas desalmadas do desenho ao serviço do regime iluminista e ditatorial. Este insolente e tirano pássaro divinizado, com penas de prata, juba e caninos satânicos de Leão é visto com grande medo pelo povo oprimido, o seu olhar além de abalar a integridade e equilíbrio de quem rodeia é o olhar cânone e renascentista, o olhar necessário para o perfeito e ideal desenho (conceito que na realidade não existe se adicionarmos conceitos de desvario e imaginação).
Iscariote é então um Deus que recebe o refúgio do povo, assumindo-se como o seu ópio, mas que na verdade acaba por representar um Deus da decadência, apelando ao conformismo, à passividade e à imponência das figuras de autoridade que tem a validade total vinda deste Deus. Iscariote é um aliado de Phillix e Pierre, os dois ditadores pai e filho que recebem apoio divino de uma personagem que eles próprios arquitecturaram! Mas estes dois, não se apercebem que também estão a ser manipulados como autênticas marionetas por esta criatura de dimensões grotescas, que progressivamente absorve o seu imperialismo.
Iscariote será enfrentado e toda esta religião manipuladora, desonesta que arrasta rebanhos conhecerá ruinas bem merecidas!